
Você percebe que cresceu, quando percebe que quando vai a algum restaurante, o seu rodízio é pago e quando a sua entrada no parque de diversões começa a ficar no mesmo preço dos seus irmãos, e seus pais começam a implantar a amargura em doses homeopáticas debaixo de sua suave pele emocional.
- Vamos a aquele parquinho da festa junina mãe?
- Não. Agora temos que pagar ingresso para você também além de seus irmãos.
Tudo isso porque sua mãe não pode ficar uma semana sem suas unhas impecavelmente bem feitas, ou seu pai não pode comprar aquela cerveja que ele sempre toma nos finais de semana nem sempre em casa com você e o resto da família porque possivelmente está tomando essa cerveja com os amigos no bar, e quando perguntado por seus filhos o porque ele não passa um final de semana com eles, a resposta sempre é: Porque preciso desestressar.
Porque não, desestressar com seus filhos no tal parque de diversões da festa junina? Também estaria longe do trabalho, sem preocupações por pelo menos 1 dia.
Mais não é a despreocupação que ele tanto almeja. Ele quer individualidade. Sua mãe também quer individualidade quando vai ao salão de beleza e fica falando mal da vida dos outros. Seus irmãos também querem individualidade quando se trancam no quarto falando com os amigos virtuais, que eles tanto acham que dão apoio e somente eles os entendem. Mais você é apenas uma criança, que queria ir ao parque de diversões e ouvir o som das risadas de todos juntos, e não ouvir a risada dos outros atrás da voz de sua mãe quando ela liga. Ouvir a risada de seu irmão atrás da porta trancada porque ele viu algo engraçado e compartilhar com todos ao invés de enviar um link ao amigo virtual que talvez ele nunca tenha visto sua face. Você só quer juntos conectados em uma única diversão. Que todos deixem de lado pelo menos por algumas horas todos os afazeres diários e rirem juntos. Mais no final do dia, sua mãe chega do supermercado cheia de sacolas, seu pai chega do trabalho cheio de papéis que você nunca vai poder usar para desenhar ou recortar, seu irmão vai entrar na sala mudo, jantar quieto (assim como todos, isso quando não ficam reclamando do dia que tiveram) e todos saem calados. O pai vai assistir TV, a mãe vai lavar a louça, o irmão volta ao quarto e você volta aos seus blocos de papel e seus lápis de cor e tenta colorir a vida que queria no papel.
Dalila Antunes
Nenhum comentário:
Postar um comentário